Meu nome é Enéas
Um professor fez um desafio: analisar uma campanha política a partir das leituras do semestre (que incluam o Super Habermas e a esfera pública jogando-se na privada e seu tradutor póstumo, J.B. Thompson).
Pois bem, eu estudante de publicidade tive que escolher apenas um entre estes vários candidatos interessantes do horário político gratuíto.
Imagem carregada, discursos verborrágicos, óculos de aros grossos, uma lustrosa careca e volumosa penugem negra sob o nome de barba.
Surge o produto com a marca fixada pelo slogan “Meu nome é Enéas”.
O melhor foi saber como iniciou a trajetória política do rapaz: a sua então mulher “cansada de ouvi-lo vociferar contra as desgraças do país”, sugeriu-lhe: "Se você tem solução para tudo, por que não se candidata a presidente da República?". Ele achou uma boa idéia.
Desde então superando-se na categoria "mais palavras por segundo", Enéas revezava-se entre a defesa das idéias nacionalistas ("nada pode travar a vaga de destruição que se aproxima se não acabarmos definitivamente com o sistema financeiro internacional, nomeadamente o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio") ou de uma fabricação ”pacífica“ da bomba atômica pelo Brasil ("A bomba atômica é fundamental. Não para jogar em ninguém, mas para sermos respeitados")
O mais bizarro são os discursos (abaixo) e a política pós-eleito de Enéas, que em geral prefere ficar calado e criticar à distância as reformas do governo. “Se me perguntarem o que é que eu faço, eu digo que sou um observador. Onde é que está escrito que eu tenho que apresentar projeto? Eu apresentarei algum quando julgar conveniente”; “Meu único projeto é um projeto nacional, a ruptura com o sistema internacional, a declaração de independência econômica”.
Ele ainda chegou a enviar uma mensagem à Lula, na qual defendeu que o período da guerra no Iraque era “ideal” para a ruptura com sistema internacional, “porque os Estados Unidos não poderiam atacar dois países ao mesmo tempo”.
A grande questão: Como ele conseguiu ser o deputado federal mais votado do Brasil? Ou ainda, em 1994 chegar a terceiro lugar como candidato a presidente?
Por que as pessoas votam nele?
O que ele falava antes de Meu nome é Enéas
No dia 4 de outubro, o senhor vai ter uma oportunidade histórica. Só haverá duas opções: de um lado, o senhor escolherá a mentira, falta de respeito ao ser humano, a entrega do patrimônio nacional e o fim da pátria. É a manutenção, no poder, da escória da sociedade. Aí estão todos os outros candidatos, não sobra nada!!! Do outro lado, eu estou sozinho a favor do povo e, contra mim, eles estarão todos juntos no segundo turno. Aí, então, cairá a máscara. Meu nome é Enéas, 56. 0900-1121-56
(Voz em off, narrando sobre imagens da Convenção que o PRONA realizou em São Paulo) Quando se pergunta ao povo, qual é o candidato ideal, para ser o presidente(?) o Dr. Enéas aparece em segundo lugar, mas só ele tem condições de acabar com a fome e o desemprego. (Apresenta pesquisa da revista "IstoÉ," mostrando que Enéas já está em segundo lugar. Entra o candidato) "Eu conheço a fome e a miséria, porque eu passei fome quando criança. Eu sei o que é faltar dinheiro para comprar pão. Eu acabarei com a fome do Brasil." (Volta voz em off, mostrando texto e números de pesquisa) O Dr. Enéas é o mais inteligente de todos os candidatos a presidente, conforme pesquisa publicada na Imprensa. (Volta Enéas) "Sendo eu o presidente, o senhor não viverá humilhado, como vive hoje. O senhor terá dinheiro no seu bolso, para colocar comida na sua casa. Meu nome é Enéas, 56.
Qual é a sua realidade? É a que o senhor vê na televisão, no programa do presidente? Tudo colorido, todos contentes, artistas milionários? Se é essa a sua realidade, então, vote neles: PSDB, PT, qualquer P, sempre estiveram juntos, é falsa a briga entre eles. Agora, se o senhor não agüenta mais ver menor abandonado na rua, tóxico, crime, tudo que não presta, aumentando. Se o senhor quer expulsar, pra sempre, esses patifes do poder, só existe uma opção.
Eu sou o único candidato a presidente que tem coragem de dizer que o Brasil precisa construir a bomba atômica. Só cinco países no mundo têm o monopólio do poder nuclear, impondo aos outros a humilhação de assinar tratados de não proliferação de armas nucleares. É preciso construir a bomba, não para jogar a bomba em ninguém, mas, sim, para evitar que alguém jogue a bomba aqui, como os Estados Unidos fizeram com o Japão em 1945. Se o Japão tivesse a bomba, ninguém se atreveria a ter destruído Hiroshima e Nagasaki. Meu nome é Enéas.
Os problemas do Brasil são os mesmos em todo o país. O desemprego que aí está decorre da abertura indiscriminada, nas nossas fronteiras, a todos os produtos importados, levando a uma destruição pavorosa do nosso parque industrial. Importa-se tudo: arroz, feijão e, até, batata frita. E é exatamente por isso, e não por qualquer outro motivo, que as fábricas estão falindo, as lojas fechando, agricultores quebrando e o desemprego aumentando. Não existe nenhuma saída para a crise, a não ser uma ruptura com o modelo econômico perverso e anti-humano que está levando o Brasil para o abismo. Meu nome é Enéas.
O senhor sabe por que o meu tempo na televisão é o menor de todos? Fui candidato a presidente em 89, 15 segundos, 360 mil votos. Em 94, um minuto pra falar. A Imprensa podre mostrava, em suas pesquisas, o meu nome em último lugar. Abertas as urnas, tive quase cinco milhões de votos. Enganaram o povo, exatamente como estão fazendo agora, para convencê-lo de que eu não tenho chance. Sabem porque fazem isso? Porque têm medo. Sabem que eu sou o único que pode acabar com toda essa patifaria, com tudo isso que aí está. Meu nome é Enéas.